Possibilidades e Limites




      Ultimamente tenho pensado em uma frase que escutei: “Cada papel é cheio de possibilidades, mas também, é cheio de limites”. Muitas vezes desejamos estar no lugar do outro, seja pra poder fazer diferente dele, porque, muitas vezes, julgamos que o outro desempenha seu papel (mãe, pai, filho, avó e avô, irmão, tio, professor e etc.) de forma errada ou para diminuir o peso do outro em determinados momentos, pois, temos sempre a vontade que o outro não sofra ou não passe por aquela situação. Quantas vezes não escutamos a frase: “se eu pudesse trocaria de lugar contigo”.

      Porém, ao invés de perder tempo no desejo de trocar de lugar com o outro, coisa que é impossível, aqui entra o limite do meu papel; parece-me que seja mais valioso ganhar tempo se empenhando em como ajudar o outro a suportar a carga/responsabilidade pedida a ele naquele momento, aqui entra as possibilidades do meu papel. Porque, cada pessoa é única e único é o desígnio de Deus sobre ela. Pois, Deus, que é amor infinito, ama a todos, e a todos ama de forma particular, ou seja, ama cada um em sua unicidade e ama cada um por inteiro e não em partes. E, nesse amor particular, Ele nos conhece intimamente, mais que nós mesmos nos conhecemos, porque Ele nos conhece de forma Real e Verdadeira; Profunda e Única; pois, tendo nos feito a Sua imagem e semelhança, reconhece a Si mesmo em cada um de nós. Logo, não somos apenas matéria, mas também alma, e, essa alma e corpo, são alimentados e suportados por Ele, que é nosso Pai e nos deu a vida. Mas, voltemos aos papeis e possibilidades.

     Pois bem, quando crianças, não raro, escutamos de nossos pais a seguinte frase: “quando você tiver seus filhos vai me entender”, e num é que eles tinham razão. Por mais que naquele momento, enquanto filho aceitasse a atitude de nossos pais, o que faz parte do nosso papel de filho – confiar -; não poderíamos, naquele momento, limitado ao papel de filho, compreender com totalidade a complexidade daquela ação; enquanto que, agora como pai/mãe, temos a possibilidade de olhar a ação sobre a ótica da responsabilidade que cabe a esse papel. Logo, é impossível trocar de lugar com o outro, mas, é perfeitamente possível, e acredito que aqui é o que Deus espera de nós, que não paremos nos limites do nosso papel, embora, seja necessário respeitá-lo, mas, que mudemos o foco do nosso papel nas diversas situações da nossa vida e da vida do outro. Ou seja, respeitando o limite de cada papel, não nos limitemos a desejar trocar de lugar com o outro, que essa impossibilidade não nos paralise dentro do nosso próprio papel que é o de ajudar o outro a suportar e a suavizar o peso ou a dor, que é pedido a ele e somente a ele naquele momento de sua vida.

      No entanto, muitas vezes, há situações em que cobramos ou esperamos do outro, atitudes que, é provável, que não faça parte do seu papel naquele momento. Porque, é necessário que reconheçamos que há coisas que somente dependem de nós mesmos ou que reconheçamos o nosso próprio limite de papel na vida do outro, bem como, reconheçamos o limite do papel do outro na minha vida, visto que, não podemos viver a vida do outro e nem o outro poderá viver a nossa. É como se, negássemos aquilo que foi pedido somente a mim, e nessa negativa delegamos ao outro um papel/responsabilidade/empenho que é meu, foi pedido a mim. Por que a mim?

         Da mesma forma, do exemplo citado na infância, também não conseguimos entender a complexidade do desígnio de Deus, de sua vontade e nem de suas permissões para a nossa vida, para a vida de cada um. Pois, Deus em seu papel de Pai amoroso e infinito, e que, nos conhece em nossa mais profunda intimidade, mais que nós mesmos nos conhecemos, Ele, que tendo nos criado e impresso em nossas almas o desejo de felicidade, sabe exatamente o que cada um necessita para se realizar e ser verdadeiramente feliz.  Por isso foi pedido a mim, e não ao outro.

      Entretanto, nos perguntamos constantemente, diante da dor ou da perda; das dificuldades ou sofrimentos da nossa vida e da vida outro, por quê? Por que Deus permite isso? Essa é uma pergunta normal, pois, somos filhos de Deus e aqui olhamos as coisas somente pelo limite do papel de filho, mas, como filhos temos a possibilidade de confiar no Pai. Pois, Ele que é Pai, e nos conhece profundamente, enxerga toda a complexidade desse papel e se utiliza de tudo em nossa vida para realizar sua paternidade: zelar, prover e dar os instrumentos necessários para que os filhos se tornem pessoas inteiras e encontrem a verdadeira felicidade. Porém, entre todas as possibilidades do papel de Pai de Deus, Ele se permite, não por impossibilidade, pois, Deus é Onipotente, mas, por amor aos filhos, o limite desse papel, que é o livre arbítrio.

         Portanto, tendo Ele nos criado a Sua imagem e semelhança, imprime em nossas almas o desejo de felicidade infinita, que somente poderá se esgotar na mais plena unidade com Ele, que é infinito amor. E por sermos partes d’Ele, criados por Ele, é que trazemos o Pai dentro de nós, e esse desejo infinito de felicidade que possuímos é a atração inata que temos de encontrá-Lo no mais íntimo de nós, pois, n’Ele está à plenitude da nossa felicidade. Entretanto, a liberdade que nos foi confiada, por amor, pois, Deus deseja ser amado por seus filhos e não se obriga a ser amado, essa liberdade tão amplamente distorcida é que nos faz tomar caminhos por estradas pedregosas, espinhosas e acidentadas, acreditando nelas saciar a nossa sede por felicidade. E nessa busca, em estradas erradas vamos matando a sede, muitas vezes, com águas sujas e não percebemos.

         Embora a Vontade de Deus seja que sejamos felizes, a liberdade que Ele nos deu, por amor, é que permite que passemos por dores e sofrimentos. Ou seja, a Sua Vontade para nós é somente amor e felicidade, mas, pela liberdade que nos foi dada é que Ele permite que colhamos os frutos das nossas escolhas. Porque somos filhos, ao contrário seríamos marionetes.

       Porém, mesmo estando em caminhos e estradas errada ou diferente daquela planejada por Deus, para cada um de nós, Ele, embora respeitando o limite, permitido por Ele mesmo, do seu papel de Pai, Deus encontra outras possibilidades de ir além de nossas escolhas e nos dá instrumentos para que possamos recomeçar e refazer nosso caminho para que nos realizemos em nossa totalidade e que encontremos a verdadeira felicidade n’Ele. E esses instrumentos são aquelas experiências que são pedidas a nós, somente a nós, e que muitas vezes não compreendemos por ser pesada ou dolorosa, porém, são nossas e somente nossas, que nos são pedidas/dadas/permitidas para que tenhamos a possibilidade de recomeçar. Assim como, para que nos fosse dada a salvação, foi pedido a Jesus a morte na Cruz, ninguém poderia morrer em seu lugar, e Ele, apesar do medo, reconhece a vontade do Pai e, como Filho, confia em seu imenso amor e diz sim. E na sua Via Crucis, Jesus carrega Sua Cruz, mesmo sofrendo e diante da dor, Ele não a deixa pra trás, não a abandona, não tem essa intenção, mesmo sem forças humanas, e nem a joga para outro, mas, aceita a ajuda de Simão de Cirene, que se compadecendo da dor de Jesus, é obrigado, pelos guardas, a ajudar a carregar a Cruz junto com Ele. Assim como Simão, reconheçamos nossas possibilidades, dentro dos limites de nosso papel, e que assim como Jesus, não deleguemos e nem abandonemos as cruzes que são, só, nossas. Portanto, hora seremos Jesus, hora seremos Simão de Cirene, mas, sempre dentro das possibilidades e limites de nossos papéis somos chamados a amar.

Pensando,
Amelia Aguiar.

Comentários

  1. Ultimamente tenho pensado em uma frase que escutei: “Cada papel é cheio de possibilidades, mas também, é cheio de limites”.
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