O jogo da Baleia Azul: a ponta do iceberg?

    

Vez ou outra surgem casos que nos chocam e deixa toda comunidade aterrorizada, em particular com relação as nossas crianças e nossos jovens, como é o caso do jogo da asfixia, e no momento o jogo da Baleia azul, entre tantas outras matérias que nos deixam perplexos, e nos fazem questionar como chegamos aqui, como nossas crianças e jovens se tornam “presas tão fáceis”? O que me faz refletir na possível raiz do problema, ou seja, o que as tornam alvos fáceis, o que as deixam em estado de vulnerabilidade que facilite cair nas armadilhas que o mundo oferece?
    
   Eventualmente levantamos hipóteses, porém, cada caso possui sua devida particularidade, e cada particularidade é repleta de possibilidades, mas, possuem em comum sempre o aspecto emocional, pois, cada pessoa é, em si, um ser que é, também, constituído de emoções, “visto que, toda experiência é feita de emoção e a emoção diz respeito a uma reação, pois, debaixo de tudo tem sempre um aspecto emotivo”, esta, também, precisa ser educada. O que me faz pensar no aspecto educativo de nossas crianças e jovens, onde, num mundo cada vez mais diverso, rápido e tecnológico; onde, muitas vezes, delegamos aos meios eletrônicos, escola e atividades extracurriculares, ou a outras pessoas o acompanhamento e cuidados com nossos filhos, devido às exigências pessoais e/ou de mercado de trabalho, os quais nos furtam, muitas vezes, um tempo real com nossos filhos, o que interfere no processo educativo deles.
    
    É provável que, na ausência de um tempo real com nossos filhos, encontremos “consolo”, muitas vezes, no tão sonhado tempo de qualidade com eles, ou seja, parece nos tranqüilizar, pelas exigências atuais do mundo moderno, trocar o tempo real pelo tempo de qualidade, delegando a este a totalidade do processo educativo dos nossos filhos. Entretanto, a certeza de que o tempo de qualidade seja eficaz nas relações familiares e no processo educativo dos nossos filhos, não tranqüilizam o famoso sentimento de culpa pela ausência na vida cotidiana deles e às vezes acaba-se por tornar esse tempo de qualidade um tempo compensatório da ausência cotidiana, onde se troca a autoridade paterna e materna por uma relação de amizade; e onde, por vezes, se troca a necessidade de impor limites e de advertir o comportamento, para exercer uma educação responsável, pela benevolência baseada no sentimento de culpa, ou seja, não nos tornamos capazes de gerar frustração e descontentamento nos nossos filhos, pois, já é tão limitado o tempo juntos, que acreditamos que deva ser este tempo um tempo feliz e delegamos ao tempo de qualidade o aspecto meramente prazeroso. Por vezes, também, amolecemos no processo educativo, por não possuir nem forças e nem paciência após um dia exaustivo de trabalho, visto que, educar é empenhativo e trabalhoso e requer dos pais a habilidade de se lançar fora, de si mesmo, e colocar em primeiro plano o seu dever educativo.
     
      De maneira idêntica a conseqüência da ausência cotidiana existe, também, os equívocos com relação ao que venha a ser a educação dos filhos e os campos aos quais devem atingir essa educação. Não raro imaginamos que a educação possui sua totalidade no dever de prover os filhos e o nosso empenho em proporcionar a eles habilidades e conhecimentos que os tornem futuros profissionais, com excelência, capazes de grandes conquistas financeiras e sociais. Então trabalhamos muito para pagar o curso de Inglês e as aulas particulares; precisamos ter condições de proporcionar a eles outras atividades extracurriculares; além de proporcionar a eles uma vida social ativa com passeios e diversão, além de ter condições financeiras para atender aos desejos deles de possuir um tênis que brilha e os de rodinha e futuramente um que poderá voar, quem sabe. E me pergunto se, juntamente com a troca do tempo real pelo tempo de qualidade, não estamos trocando as necessidades reais dos nossos filhos por falsas necessidades. E penso que talvez, dessa forma, não realizemos nosso papel educativo em sua totalidade, pelo qual possibilitaria aos nossos filhos usufruírem, por meio do processo educativo, os instrumentos necessários para o crescimento da pessoa em sua inteireza/totalidade.
         
       Como conseqüência dessas lacunas no processo educativo que possibilite a inteireza da pessoa humana – nossos filhos -, acredito que, se tornem, portanto, alvos fáceis, por estarem em estado de vulnerabilidade, por faltar a eles habilidades e capacidade de se desvencilhar dessas armadilhas. Uma dessas lacunas do processo educativo são a educação emocional e a educação para o uso responsável e seguro das redes sociais. Logo, dentro do processo educativo, se faz necessário educar as emoções, pois, “debaixo de tudo tem sempre um aspecto emotivo”, educá-la possibilita a pessoa no seu processo de amadurecimento e desenvolve nela a capacidade de resiliência, pois, embora a tecnologia avance e o mundo mude numa velocidade que nos impele a segui-lo, o acesso a informação, no entanto, não é sinônimo de maturidade. A criança e o jovem devem ser acompanhados na sua totalidade e necessidades reais, com vigilância e atenção constante, pois, o seu processo de amadurecimento não acompanha a velocidade do mundo, pelo contrário, seu amadurecimento respeita suas fases naturais e requer de instrumentos para que alcance sua plenitude com totalidade, e esses instrumentos devem ser dados num processo educativo responsável, empenhativo, vigilante e também por meio de um relacionamento íntimo que possibilite entre pais e filhos uma relação de confiança e de reciprocidade, onde ambos sejam capazes de se educarem, tendo em vista a inteireza da pessoa humana.

"Os pais, que transmitiram a vida aos filhos, têm uma gravíssima obrigação de educar a prole e, por isso, devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores. Esta função educativa é de tanto peso que, onde não existir, dificilmente poderá ser suprida". (São João Paulo II)

Unida nesta reflexão,
Amelia Aguiar.

Comentários

  1. Vez ou outra surgem casos que nos chocam e deixa toda comunidade aterrorizada, em particular com relação as nossas crianças e nossos jovens, como é o caso do jogo da asfixia, e no momento o jogo da Baleia azul, entre tantas outras matérias que nos deixam perplexos, e nos fazem questionar como chegamos aqui, como nossas crianças e jovens se tornam “presas tão fáceis”? O que me faz refletir na possível raiz do problema...

    ResponderExcluir

Postar um comentário