Acorda, corre... corre...Tô atrasado.
Trabalho... reunião... Almoço... mais trabalho...problemas...cabeça
cheia...anda...rápido... Tô sem tempo. Cansado... estressado...exausto. Casa, descanso...
Hoje não, amanhã começa tudo novamente. Deixa-me, hoje não estou afim, hoje não!
E a engrenagem da vida vai
absorvendo o nosso tempo, as nossas forças, a nossa habilidade de sair de si
para encontrar o outro e muitas vezes a habilidade do encontro com o mais
profundo do nosso eu. Estamos vivendo como o coelho de Alice no país das
maravilhas, que de tão atarefado e atrasado se torna incapaz de escutar e
acolher profundamente quem passa ao seu redor, ou de acolher-se. E dessa forma
passam os dias, as semanas, os meses e os anos. E de repente nos damos conta
que o tempo está passando rápido demais. E em alguns momentos paramos e fazemos
uma reflexão do que fizemos com o nosso tempo, de como anda a vida e muitas
vezes se toma a resolução de aproveitá-la melhor.
Entretanto, muitas vezes essa
resolução de aproveitá-la melhor traz para a alma o desejo de se compensar pelo
tempo dedicado “aos outros”, traz com essa resolução certa pitada de
individualidade, de satisfação pessoal, carrega o olhar para o próprio mundo e
desejos, acaba voltando o olhar centrado em si mesmo. E o indivíduo passa a ser
o centro de sua vida, de suas escolhas, o centro do mundo. Tornando suas razões
pessoais justificáveis e corretas.
Portanto, o eu quero, o eu posso,
o eu mereço, eu não gosto, o eu não quero... Vai virando lema de vida. Para
salvar a própria vida, para se resguardar do mundo, passamos a não querer mais
perder tempo, a ser feliz, a buscar os prazeres da vida, a alegria, a
satisfação pessoal. Então, adentramos num ciclo vicioso de viver de forma
individualizada e egocêntrica. Queremos ser servidos, mas, não estamos
dispostos a servir. Exigimos do outro, mas, não queremos ser cobrados. Armamos-nos
de direitos, e passamos muitas vezes por cima dos direitos dos outros.
E nessa engrenagem da vida,
muitas coisas vão ficando descartáveis: os relacionamentos (não deu certo,
separa!), porque não podemos perder tempo “concertando”, passa pra frente. As
conversas, os encontros pessoais, as felicitações... Queremos fazer tudo do
jeito mais rápido e simples, para não perder tempo. Os materiais, a tecnologia,
os bens de consumo. Tudo se desatualiza numa velocidade tão rápida que são
descartados para que não se fique fora de moda e nem desatualizado com a
velocidade das invenções. E corremos o risco de entrar num ciclo vicioso de
trabalho para bancar o preço da modernidade, e vamos nos afundando cada vez
mais no mundo de Alice no país das maravilhas. Hã, como assim?
Pois bem, geralmente usamos essa
expressão para dizer que a vida não é tão boa como no país das maravilhas,
porém, se formos olhar sobre uma ótica diferente, notaremos, que no país das
maravilhas, poucos têm tempo ou disposição para ajudar Alice. Poucos estão comprometidos com a necessidade de Alice, mas, comprometidos
com suas próprias necessidades: tempo, obediência, medo. E quando ela vira uma ameaça
a essa engrenagem a solução é: "Cortem-lhe a cabeça". Então, talvez, de certa forma,
estejamos vivendo no País das Maravilhas, ou no que pensamos ser uma maravilha
de vida. E de tão empenhados em não perder a própria vida, acabamos por perder
a essência dela.
Somos criados, sobretudo, para os
relacionamentos. Para a vida com os outros, em meio aos outros. Para a
partilha, para o coletivo. Faz parte de quem somos o encontro com o outro. E à
medida que vivemos focados em nós mesmo vamos mergulhando num vazio, que muitas
vezes pensamos que deve ser preenchido com a satisfação pessoal, com as necessidades
pessoais, com os prazeres pessoais. E não nos damos conta de que esse vazio é
preenchido pelo encontro com o outro. Não um encontro superficial, pelas redes
sociais, nos botecos da vida. Mas, um encontro profundo com o outro, com as
necessidades do outro.
Portanto, esse encontro com o
outro nos torna capazes de um encontro profundo com a própria vida. Habilita-nos
para o encontro profundo pessoal, pois, o lançar-se no outro, nos liberta da
escravidão pessoal. Da escravidão da individualidade, da escravidão da
realização pessoal. Da escravidão de salvar a própria vida, que de tanto querer
salvá-la, acabamos por perdê-la. Porque a essência dela está no encontro com o
outro e não exclusivamente com o comprometimento com o nosso eu. Temos como
vocação os relacionamentos. E quando nos tornamos escravos de nós mesmo,
colocamos a vida e a felicidade em estado de vulnerabilidade. Colocamos o mundo
em estado de vulnerabilidade. Hã, o mundo?
Sim, o mundo. Somos parte de um
todo, somos como um grande mosaico. Se não somos peças inteiras, completas, se
não somos essencialmente o que somos, compromete o todo, o mosaico por
completo. Imagine um quebra cabeça faltando uma peça, ou com uma peça
danificada, o que acontece? Acontece que tudo continuará em desordem, pois, a
peça deixando de ser essencialmente peça, impossibilita a construção harmoniosa
do todo.
A peça danificada por perder sua
essência, deixa de realizar a sua vocação, que embora única e particular, é
chamada a compor o todo. A beleza de sua particularidade e unicidade é compor o
todo. Então, comprometendo sua própria essência, compromete a essência do todo.
Embora únicos e particulares, não contemos em nós o mundo todo, não se encerra
o mundo em uma única pessoa, não se constrói um mosaico com uma única peça.
Portanto, no relacionamento com o outro encontro e realizo minha essência. No
relacionamento com o outro me torno uma pessoa inteira. O relacionamento com o
outro permite um encontro com o mais profundo do nosso eu.
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ResponderExcluirA beleza de sua particularidade e unicidade é compor o todo. Então, comprometendo sua própria essência, compromete a essência do todo.
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Super atual e pertinente! Amei esse texto!
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