A DIMENSÃO DA DOR

 A dimensão da dor traz consigo muitas facetas. Cientificamente ela pose ser aguda, cutânea ou visceral e até mesmo crônica. Do ponto de vista de quem a sente ela é somente dor, sem parar para refletir seus tipos, somente se sente. E, humanamente, produz um único eco: sofrimento.

Mas a dimensão da dor é multifacetada dependendo do ponto de vista que ela é olhada, interpretada, vivida. Ela traz um eco de sofrimento, de angústia, de inquietação. Reflete na alma, na mente, na paz. Mas, também, traz um eco de amor.
Ela atinge quem a sente e quem olha quem a sente, mas, sobretudo, gera uma faceta diferente pelo modo que ela é olhada e sentida. Ela traz consigo um raio de luz, um reflexo de amor. E pode também deixar um rastro luminoso.

Vejamos Cristo na Cruz, que no seu ápice de dor entregou-se nas mãos de Deus, num gesto de completo abandono, de confiança, de entrega total de si para o outro – Deus -, e nesse entregar-se deixou-nos um rastro luminoso, inundou-nos com o mais genuíno amor. Inflamou nossos corações d’Ele, que se derramou em nós como amor. No ápice da sua dor, Ele também atingiu o ápice de seu amor.

Dor e amor, como os dois lados de uma mesma moeda, mas, ambas, em unidade, que compõem o valor da moeda. O que seria a cara da moeda sem a coroa? Ainda assim seria essencialmente moeda? Como diria Romeu, o que seria da Rosa sem seu perfume, ainda assim se chamaria Rosa?

Dor e amor em unidade no vértice da alma; que se expressa em duas faces: o dar e o receber; os dois lados de uma mesma moeda. Que encontram seu ápice no abandono de si mesmo, para dar-se ao outro.
Essa é a nossa riqueza, o nosso tesouro. É o amor que carrega a cruz, é o amor!

"Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me”, (Lucas 9:23-24).

Dor e amor realizam uma simbiose, realizam um milagre. Elevam a alma, transfiguram a alma, lapidam a alma, faz-nos mergulhar numa experiência ainda mais profunda no campo espiritual, nos levam a (re)escolher diariamente o Esposo dela.

O que é a cruz, senão as dores de cada dia: sejam espirituais, materiais ou na própria carne?
E o que é o amor, senão o próprio Cristo, que nos inundou d’Ele, ao entregar-se ao Pai? 

E que por generosidade d’Ele em nós, nos leva também a nos entregar a Deus na mesma medida d’Ele: no abandono de nós mesmo por amor, e nesse amor corresponder ao amor do Pai. É no vazio, de si, que acontece a simbiose, que dor e amor encontram seu ápice.

Mas, diante da dor do outro o que podemos fazer?

Podemos olhar a dor do outro com o olhar do outro, tendo o outro como referência da sua dor. Pois, muitas vezes olhamos a dor do outro, cheios de nós mesmo, e de tão cheios não conseguimos enxergar a dimensão da dor do outro e tendemos a diminuí-la, a dar pouca importância, ou permanecemos na ignorância de seus reflexos na alma do outro. E dessa forma, pouco, podemos fazer para diminuí-la no outro, para ajudar de forma concreta o outro.  

Também, nós, podemos ser o amor que carrega a cruz do outro, o amor que alimenta Jesus no outro. E o outro alimentado, se fortalece para realizar, dentro de si, a relação simbiótica entre dor e amor, e a transformar em uma oferta para Deus.

Contudo, quando atingimos o ápice da dor no dar, convertemo-nos em amor no receber, pois, dando a dor, abrimos o canal da graça divina, que é o próprio Deus que se derrama em nós. Pois, Deus é amor e vive no homem como amor. 

Amelia Aguiar.

Comentários

  1. A dimensão da dor traz consigo muitas facetas. Cientificamente ela pose ser aguda, cutânea ou visceral e até mesmo crônica. Do ponto de vista de quem a sente ela é somente dor...

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