Personalidade VS Comportamento

 Acredito que um dos grandes desafios na arte de educar, como mãe e filha que sou, é o de conduzir nossos filhos, e nós mesmos, a diferenciar aquilo que sou daquilo que posso ser. Costumamos dizer: Eu sou assim, ele é assim, esse é o meu jeito. Ou seja, existe uma diferença entre o meu comportamento e o “meu jeito”.

Escutamos muito os pais falarem, e até mesmo nós caímos neste erro de dizer: deixa-o, é o jeito dele, ele é assim ou não mexe com ele que ele é assim... E com essas palavras a gente acaba afirmando ao outro que é exatamente assim que ele deve ser. Faz com que o outro acredite que o comportamento dele deve ser exatamente como ele deseja que seja.  E o que pensamos ser o correto, ou seja, respeitar o jeito do outro, só o faz se afirmar com aquela imagem que ele acredita ser a correta.

Porém, precisamos entender que vivemos num mundo das relações humanas, e que nesse mundo não permanecemos únicos e exclusivos, mas, vivemos em constante comunhão, relação e vida em comum com o outro (vizinho, professor, amigos, família). E o nosso papel, como pai e mãe, é ajudá-los a coexistirem com os outros. Pois, tudo nasce das relações humanas: trabalho, amigos, amores, família...

O nosso desafio, portanto, é entender que amar vai além de preservar, proteger, “respeitar”, não mexer. Mas, é levá-los a adquirir a habilidade de se reinventar, de se controlar, de mudar, ou seja, de melhorar sempre. Porque amar é conduzir o outro a mudanças, as lapidações necessárias da vida. E quando protegemos ao extremo, furtamos a habilidade dos nossos filhos de lidarem com as frustrações, com as emoções, com o outro e consigo mesmo. Furtamos dos nossos filhos a inteligência emocional e relacional deles.

É necessário diferenciar aquilo que deve pertencer apenas a mim – “o que me faz mal, é meu” – e não ao outro. O outro não é o depósito de minhas emoções, de minhas frustrações, mas, é aquele que devo: respeitar, conviver, comungar e me relacionar.  Com quem devo: construir, dividir e somar. Esse é o “modo de ser” das relações humanas, mas, é imprescindível, que no decorrer da vida, principalmente na infância, com a ajuda dos pais, que desenvolvamos a habilidade de construí-lo e a inteligência emocional e relacional. Caso contrário, o mundo se tornará o lugar dos desencontros, ao invés da comunhão.

Outra diferença que é necessária ser feita pelos pais é a do que no comportamento dos nossos filhos, é fruto da personalidade, de suas particularidades, e o que no comportamento deles é fruto de hábitos, de comodismo, de reflexos do nosso próprio comportamento, de egoísmo, e do desejo de que as coisas sejam como eles querem. Diante daquilo que não é particularismo, devemos fazê-los entender que é um comportamento que não é admitido, e não admiti-lo de fato, pois vai virar parte do que eles serão. E aquilo que faz parte de suas particularidades, conduzi-los, a lidarem com elas de forma inteligente, no campo da emoção e das relações.

Afim de que, o nosso comportamento e o deles, seja fruto de uma consciência, de que o mundo é o espaço das relações humanas, e que nele, não somos únicos e exclusivos. E que nele, sou responsável, apenas não por mim, mas, pelo outro.
Depende, portanto, de nós pais, de construímos o mundo que queremos para os nossos filhos, por meio da educação que damos a eles. Quem ama educa, mas, educar é uma arte e um desafio. Pois, ela vai além dos particularismos e deságua na comunhão, na humanidade.


Com amor,
Amelia Aguiar.

Comentários

  1. O nosso desafio, portanto, é entender que amar vai além de preservar, proteger, “respeitar”, não mexer. Mas, é levá-los a adquirir a habilidade de se reinventar, de se controlar, de mudar [...].

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